Tráfico de pessoas: um crime que não guarda quarentena

Editorial Por Luis Miguel Modino*

Cuidar e defender as vítimas é uma obrigação em toda sociedade que se preze. O tráfico de pessoas, que atinge 4 milhões de pessoas, especialmente crianças, adolescentes e mulheres, é um dos crimes mais lucrativos do mundo, superando os 32 bilhões de dólares por ano. O combate desse crime deve ser uma prioridade mundial, também para a Igreja católica.

A Igreja do Brasil, através da Comissão Episcopal Pastoral Especial para o Enfrentamento ao Tráfico Humano (CEPEETH), realiza entre os dias 26 e 30 de julho uma campanha que pretende mobilizar e sensibilizar a Igreja do Brasil, assim como toda a sociedade brasileira, para o enfrentamento ao tráfico de pessoas na semana do Dia Mundial de Enfrentamento ao Tráfico de Pessoas, 30 de julho. Neste ano a campanha recebe o nome de “Quanto vale a vida?”.

O crime do tráfico de pessoas é uma realidade muitas vezes invisibilizada, pela sociedade e pelas instituições públicas, que deveriam realizar um efetivo combate a esse mal e a punição de agentes criminosos, mas também cuidar da promoção e inclusão social das vítimas e a garantia de seus direitos. Não podemos ignorar que o tráfico de pessoas é uma realidade que desumaniza e transforma as pessoas em objetos, arrancando-lhes a dignidade e a liberdade, dois direitos essenciais.

O Papa Francisco sempre tem se preocupado com essa realidade, um drama que ele considera como uma das formas de escravidão contemporânea, se referindo a ele como um flagelo “atroz, uma chaga”, que demanda uma atuação, também da parte da Igreja católica. Essa problemática está muito presente em nossa região amazônica, um dos locais onde muitas vítimas são captadas e se tornam objeto do tráfico, tanto nacional como internacional. Geralmente se trata de pessoas pobres, que diante da necessidade, muitas vezes extrema, são enganadas com promessas de dinheiro fácil.

A temática do tráfico de pessoas esteve presente na reflexão ao longo do Sínodo para a Amazônia. No documento final, ele é considerado, como “uma das piores formas de violência contra as mulheres e uma das violações mais perversas dos direitos humanos”. Trata-se, segundo o documento, de um dos gritos dos pobres, que mostram que a Amazônia é um local de dor e de violência, que atinge a vida dos povos, uma ameaça real com graves consequências sociais, muitas vezes relacionados com interesses econômicos dos grupos dominantes, que tem por vítima os setores mais vulneráveis, as crianças, os jovens, as mulheres. É por isso, que se pede um permanente trabalho pastoral em rede.

O Papa Francisco, na exortação pós-sinodal, Querida Amazônia, no sonho social, fala da exploração sexual e o tráfico de pessoas, como uma realidade crescente na Amazônia. Essa realidade do tráfico de pessoas, em palavras do Papa, diz que se aproveita daqueles que foram expulsos de seu contexto cultural, sobretudo os povos indígenas, sendo visto como um novo tipo de colonialismo, fruto da globalização, que não pode ser permitido.

Estamos diante de mais uma oportunidade para tomar consciência desse crime, para agir como sociedade e como cristãos. Trata-se de pessoas, muitas vezes mais próximas do que a gente pensa. Também é tempo de agradecer a quem assume essas causas, na sociedade e na Igreja, lembrando um trabalho que desde há vários anos vem desenvolvendo a Rede um Grito pela Vida, testemunha do cuidado de Deus para com os pequenos e indefesos.

Ouça: 

*Missionário espanhol e membro da equipe de comunicação da REPAM – Rede eclesial Pan Amazônica.