
Foto: Divulgação/Águas de Manaus
Por muitos anos, sentar na frente de casa, receber familiares e preparar uma refeição aos domingos eram situações difíceis para Maria Cristina Pereira da Silva. Moradora do Beco São Vicente de Paula, na Redenção, zona Centro-Oeste de Manaus, ela convivia com o esgoto, o mau cheiro, o lixo e a presença de ratos e insetos próximos da residência.
Quando eu cheguei aqui, que eu vi toda aquela sujeira, todo aquele rio de garrafas e o lixo jogado dentro do igarapé, os canos passando de um lado para o outro, que não tinha tratamento, não tinha nada. Então aquilo para mim foi uma tristeza muito grande”, relembra.
Maria conta que comprou a casa porque era o imóvel que cabia no dinheiro que tinha. Ao chegar ao local, encontrou uma realidade diferente da que esperava.
A gente não conseguia nos domingos fazer um assado para comer com a família porque não dava. O cheiro e a visão que a gente tinha eram horríveis e a gente estava ali fazendo alimentação e as coisas todas caindo no igarapé. Então isso era uma das coisas mais difíceis para nós”, conta.
A transformação começou com a chegada da água tratada. Depois, veio a implantação da rede de esgoto.

Maria Cristina na frente da sua casa.
Para Maria, a mudança passou a ser percebida em um espaço que antes fazia parte do problema: a frente de casa.
Hoje nós podemos ficar na frente da nossa casa, nós podemos conversar, nós podemos andar na comunidade com segurança, tanto para não pisar num inseto, num bicho, numa coisa, e como ficou confortável para todo mundo”, afirma.
O local também voltou a ser usado para momentos de convivência com familiares e amigos.
A gente pode sentar na frente da casa da gente. A gente tem mais dignidade, pode convidar os amigos, parentes para vir na casa da gente. Os ratos sumiram, os insetos também, barata, carapanã, essas coisas tudo teve um alívio. E o principal: o odor também está desaparecendo.
UMA REDE ADAPTADA ÀS PALAFITAS
Levar saneamento para uma área de palafitas exige soluções diferentes das utilizadas em uma rua convencional. As casas possuem alturas diferentes, as passarelas acompanham a estrutura da comunidade e a rede precisa ser adaptada às características de cada local.

Foto: Divulgação/Águas de Manaus
Segundo Paulo Ricardo Silva, gerente de Serviços Comerciais da Águas de Manaus, foi necessário desenvolver uma estrutura específica para essas áreas.
Foi necessário desenvolver uma engenharia específica para cada área, cada palafita, implantação de rede suspensa, tubulações elevadas, evitando o contato direto com o igarapé”, explica.
O trabalho também considera as características de cada imóvel.
Cada residência precisou ser analisada individualmente, porque cada uma é mais alta do que a outra, uma mais baixa. Mas todas a gente precisou fazer adaptações, adaptações no momento da execução, sempre pensando que todas precisam ser conectadas ao sistema, à nossa rede de esgoto”, afirma Paulo.
O Beco São Vicente de Paula, na Redenção, foi a primeira área de rip-rap a receber os serviços. No local, a Águas de Manaus informa que implantou mais de 1.500 metros de rede de esgoto, com atendimento a cerca de 150 imóveis e aproximadamente 750 pessoas.
O objetivo sempre foi garantir que todos os moradores estejam conectados à rede de esgoto e que nenhum desses imóveis fique fora do benefício”, afirma o gerente.
MENOS ESGOTO NOS IGARAPÉS
O saneamento também produz efeitos fora das casas. A coleta e o tratamento do esgoto reduzem o lançamento de esgoto sem tratamento nos cursos d’água.
O principal impacto é a redução do lançamento de esgoto in natura nos igarapés e no Rio Negro”, explica Paulo Ricardo.
A expansão do saneamento para áreas de palafitas depende de estudos técnicos, mapeamento das comunidades e projetos adaptados às características de cada região.

Foto: Divulgação/Águas de Manaus
De acordo com a concessionária, fatores como densidade populacional, condições ambientais, vulnerabilidade social, riscos sanitários e possíveis impactos sobre os corpos d’água são considerados na definição das soluções.
QUANDO O SANEAMENTO MUDA A ROTINA
Para Maria Cristina, o resultado do saneamento vai além das estruturas instaladas na comunidade. A mudança também aparece na forma como os moradores ocupam o espaço onde vivem.
A moradora relata que problemas de saúde faziam parte da rotina antes das melhorias. Hoje, ela percebe uma mudança nas condições de vida da comunidade.
A gente só vivia assim com o nariz escorrendo, com gripe e sempre a gente estava se sentindo mal. Hoje, com água tratada e o esgoto, melhorou muito. Não tem muita diarreia na comunidade, não tem muita virose que dava muito.
O relato representa a percepção da moradora sobre as mudanças vividas no local e não substitui dados epidemiológicos sobre os efeitos do saneamento na saúde.
Para Maria, a principal transformação pode ser resumida em uma palavra: dignidade.
O saneamento representa a dignidade. Acredito que todo mundo que mora à margem de um igarapé precisava e gostaria de ter um saneamento básico.
Ela também fala sobre a diferença entre viver com e sem o serviço.
Algumas vezes, quando a gente não tem esse tratamento, parece que a gente não é igual às outras pessoas que moram na beira da rua. Hoje, para nós, graças a Deus, tudo é diferente. A gente foi conquistando aos poucos e hoje só temos alegria.
Entre pontes de madeira, casas suspensas e igarapés, a transformação aparece em situações simples: sentar na frente de casa, caminhar pela comunidade, preparar uma refeição ou receber familiares e amigos.

Foto: Divulgação/Águas de Manaus
Para quem passou anos convivendo com o esgoto próximo da residência, essas ações passaram a fazer parte novamente da rotina.
No Beco São Vicente de Paula, na Redenção, o saneamento mudou a estrutura da comunidade, mas também a forma como moradores como Maria Cristina vivem e ocupam o lugar onde moram.
Rafaella Amorim, Rádio Rio Mar