Centros de acolhida da Igreja levam dignidade a pessoas em situação de rua em Manaus

Na série especial sobre a Campanha da Fraternidade 2026, que convida a sociedade a refletir sobre o direito à moradia, nossa reportagem mostra como centros de acolhida, mantidos pela Igreja Católica, em Manaus têm se tornado espaços de cuidado, escuta e reconstrução da dignidade para pessoas que vivem nas ruas.

Ouça a reportagem em áudio:

Pastoral do Povo de Rua participa da Via Sacra no Centro Histórico de Manaus / Foto: Arquidiocese de Manaus

As ruas das grandes cidades guardam histórias que quase sempre passam despercebidas. Histórias de perdas e de silêncio, mas também de resistência e esperança.  Hoje, mais de 300 mil pessoas vivem em situação de rua no Brasil, segundo o Observatório Brasileiro de Políticas Públicas com a População em Situação de Rua. É um número que cresceu de forma expressiva na última década.

Em Manaus, a realidade também preocupa. Mais de 3.100 pessoas vivem atualmente nas ruas da capital amazonense, de acordo com levantamento da Secretaria Municipal da Mulher, Assistência Social e Cidadania.

Um estudo do Observatório Brasileiro de Políticas Públicas com a População em Situação de Rua mostra que, no Amazonas, os municípios com maior número de pessoas vivendo nessa condição são Manaus, Manacapuru, Iranduba, Itacoatiara, Rio Preto da Eva, Humaitá, Presidente Figueiredo, Tefé, Fonte Boa e Maraã.

Pessoas em situação de rua dormem na Avenida Eduardo Ribeiro, centro de Manaus / Foto: Hiolanda Mendes

Diante desse cenário, a Igreja Católica busca transformar fé em ação concreta. Desde 2017, a Pastoral do Povo de Rua da Arquidiocese de Manaus atua diretamente com essa população.

A missão é clara: estar presente entre os mais vulneráveis, defender a vida e contribuir para a construção de políticas públicas.

Um dos frutos desse trabalho é o Centro de Acolhida do Povo de Rua Dom Sergio Eduardo Castriani, inaugurado em 14 de março de 2021.

No espaço, quem não tem moradia encontra muito mais do que assistência. Recebe roupas limpas, material de higiene, local para tomar banho e fazer uma refeição.

Dom Hudson Ribeiro, bispo referencial para as Pastorais Sociais da Arquidiocese de Manaus, destaca que a Pastoral do Povo de Rua, juntamente com outras comunidades e iniciativas da Igreja, integra a Rede POP Católica, voltada ao cuidado e à defesa da dignidade das pessoas sem moradia.

“As atividades da Pastoral do Povo da Rua, junto com as outras comunidades de vida, que atuam com a população em situação de rua — e aqui vale ressaltar a Comunidade Nove Eterna Aliança, localizada no centro da cidade, a Comunidade Aliança de Misericórdia, situada na Avenida Constantino Nery, e a Fraternidade O Caminho — constituem, juntamente com a Pastoral do Povo da Rua e a Cáritas Arquidiocesana, a Rede POP Católica. Essa rede foi criada ainda no tempo da condução do querido padre Orlando e tem como missão lutar pelos direitos da população em situação de rua, levando, em primeiro lugar, o aspecto da caridade, da assistência e da evangelização, mas também atuando na defesa e na promoção de políticas públicas voltadas à população em situação de rua”, disse Dom Hudson Ribeiro.

Além do acolhimento diário, a pastoral também participa da construção de políticas públicas. Atualmente, integra o Comitê Intersetorial de Acompanhamento e Monitoramento da Política Municipal da População em Situação de Rua, criado pela Prefeitura de Manaus para fortalecer ações voltadas a essa população.

A coordenadora da Pastoral do Povo de Rua, Cássia Rosária, destaca que, entre as diversas atividades desenvolvidas, estão a assistência social, jurídica e de saúde, além de tratamento e acompanhamento, com possibilidade de internação na Fazenda da Esperança ou no abrigo Desafio Jovem Manaus.

“Mas o nosso foco principal, em especial, é a população em situação de rua, que está entre as mais vulneráveis da nossa sociedade. Aqui, realizamos um trabalho de assistência social, com encaminhamentos para serviços de saúde e também para os órgãos de competência jurídica, que nos apoiam no acolhimento, na emissão de novos documentos e no esclarecimento de processos jurídicos. A pastoral busca esse apoio junto aos demais órgãos e mantém um diálogo muito positivo para conseguir atender essas demandas. Também realizamos encaminhamentos para tratamento na Fazenda da Esperança, destinados às pessoas que desejam e conseguem iniciar um processo de saída da situação de rua. Sabemos que a dependência é algo muito forte. Não basta apenas querer; é preciso ter apoio e uma estrutura que ajude nesse processo de reconstrução da vida”, comentou a coordenadora da Pastoral do Povo de Rua, Cássia Rosária.

Equipe da Pastoral do Povo de Rua / Foto: Hiolanda Mendes

Entre as histórias de recomeço está a de Adria Santos. Ela viveu nas ruas por mais de 16 anos. Foi por meio das ações da Pastoral do Povo de Rua que encontrou apoio para reconstruir a própria vida. Adria conseguiu realizar um curso profissionalizante e hoje está inserida no programa de aluguel social, dando novos passos longe das calçadas da cidade.

“Eu sou bem recebida, graças a Deus. Sempre fui. Fui acolhida por eles. Recebi três meses de aluguel e, agora, estou empregada, graças a Deus. Aqui nós temos banho, temos roupas. Eles cuidam da gente, deixam a gente bem arrumadinha. É como uma mãe. É uma segunda mãe”, disse Adria Santos.

Em 13 de agosto de 2025, dia dedicado a Santa Dulce dos Pobres, outro passo importante foi dado. Foi inaugurada a primeira Casa de Acolhimento e Saúde Mental da População em Situação de Rua, nas dependências da Fazenda da Esperança masculina.

O espaço faz parte de um projeto que prevê cinco casas construídas com recursos doados pelo Ministério Público do Trabalho do Amazonas e Roraima. A unidade tem capacidade para acolher 23 homens que vivem nas ruas de Manaus por um período de até um ano. Durante esse tempo, eles também aprendem um ofício na Marcenaria Regional da fazenda.

Dom Hudson Ribeiro desta que, em 2026, a Igreja já trabalha para implantar um novo espaço destinado ao acolhimento de pessoas que recebem alta hospitalar, mas não têm moradia ou familiares que possam recebê-las.

“Nós, pela Comunidade Fraternidade O Caminho, estamos organizando um espaço com seis acomodações, dentro de um quarto adaptado, com banheiro e todas as condições necessárias para acolher apenas aqueles que saem do hospital e não têm para onde ir. Vemos diversas situações: a pessoa recebe alta do hospital e acaba indo para a rua, muitas vezes com ferida aberta, precisando de curativo. Falta esse olhar mais atento. Sabemos que não vamos resolver o problema de todo mundo, mas queremos ser um sinal para a Igreja, um sinal profético de que é possível e necessário fazer algo a mais. São pessoas. É o próprio Jesus que está ali, presente”, explicou Dom Hudson.

Pastoral do Povo da Rua acompanha reordenamento no Centro de Manaus / Foto: Arquidiocese de Manaus

Dados do Departamento de Proteção Social Especial da Secretaria Municipal da Mulher, Assistência Social e Cidadania de Manaus mostram que a maior concentração da população em situação de rua está na zona sul de Manaus, principalmente na região central da cidade. A maioria é formada por homens, com idade predominante entre 25 e 55 anos.

Em meio à rotina acelerada do centro da cidade, iniciativas solidárias também ajudam a manter viva a esperança. Há mais de três anos, a Comunidade Ágape na Rua realiza ações na Praça dos Remédios, nas proximidades da Igreja Nossa Senhora dos Remédios.

O coordenador da comunidade, Ruzeval Cardoso, destaca que o grupo oferece alimentação, apoio emocional e espiritual às pessoas sem moradia, que vivem nas ruas.

“O Agapé na Rua tem como uma de suas opções a evangelização. Inclusive, realizamos celebrações aos domingos nas praças, aqui mesmo na região do Remédios, com as pessoas em situação de rua. Por isso, neste ano, também vamos intensificar as abordagens sociais, com a presença de profissionais, justamente para reforçar esse trabalho de escuta. Na maioria das vezes, são pessoas que passaram por ruptura de vínculos familiares ou enfrentam a dependência química. Mas, muitas vezes, o principal fator é mesmo a quebra do vínculo familiar. Isso é muito triste, porque quando a família não consegue manter o diálogo com essas pessoas, elas acabam indo para a rua”, comentou Ruzeval Cardoso.

Comunidade Ágape na Rua

Outro trabalho que se tornou referência é o da Comunidade Nova e Eterna Aliança, que atua há mais de 32 anos em Manaus no atendimento a pessoas em situação de vulnerabilidade social.

Localizada na área central da cidade, na rua Visconde de Mauá, a instituição oferece almoço três vezes por semana para mais de 130 pessoas.

Comunidade Católica Nova e Eterna Aliança

O coordenador da comunidade, Theo Menezes, destaca que no local também são disponibilizados guarda pertences, espaço para higiene pessoal, acompanhamento psicossocial e apoio para emissão de documentos, para resgatar a cidadania.

“Para nós, a população em situação de rua é um cuidado constante. E, neste período chuvoso, esse cuidado se torna ainda mais exigente. A doação de roupas, por exemplo, é algo contínuo para nós. Quando acolhemos uma pessoa em situação de rua, muitas vezes ela chega sem documentos, sem nada. Então, fazemos primeiro uma escuta. Aqui contamos com psicólogo e assistente social, que realizam esse atendimento para conhecer a história da pessoa e, a partir dela, definir por onde vamos caminhar. Se ela precisa de documentação — como registro ou RG — buscamos encaminhar para os órgãos responsáveis, para que consiga regularizar sua situação. Se precisa de atendimento de saúde, também fazemos esse encaminhamento. Muitas vezes levamos a pessoa ao hospital no carro da própria instituição. Em outras situações, é necessário acionar uma ambulância. Tudo isso porque procuramos viver a página do Evangelho em que Jesus diz: ‘tudo aquilo que fizerdes a um desses pequeninos, é a mim que o fazeis”, disse o coordenador da comunidade, Theo Menezes.

Almoço realizado com pessoas em situação de rua / Foto: Comunidade Nova e Eterna Aliança

A Campanha da Fraternidade 2026 propõe uma reflexão urgente: moradia não é apenas um teto. É direito fundamental. Os centros de acolhida mantidos pela Igreja mostram que a transformação começa no cuidado concreto. Entre um banho quente, uma refeição partilhada e uma escuta atenta, vidas começam a ser reconstruídas. Porque, antes de qualquer casa, toda pessoa precisa de algo essencial: dignidade.

Confira a entrevista com a equipe do Centro de Acolhida do Povo de Rua Dom Sergio Eduardo Castriani:

 

Confira a entrevista com o coordenador da Comunidade Ágape na Rua, Ruzeval Cardoso

Hiolanda Mendes – Rádio Rio Mar

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