Campanha da Fraternidade destaca o protagonismo feminino na luta por moradia digna em Manaus

Mulheres negras, indígenas e mães solo estão à frente de ocupações urbanas

A luta por moradia digna em Manaus tem rosto e voz feminina.

Mulheres negras, indígenas e mães solo estão à frente de ocupações urbanas e transformam áreas marcadas pela falta de infraestrutura em comunidades organizadas e solidárias. Os dados são do Mapeamento Nacional de Conflitos pela Terra e Moradia – Despejo Zero 2025. Esse cenário está no centro da Campanha da Fraternidade 2026, que convida a sociedade a refletir sobre a moradia como direito fundamental e expressão da dignidade humana.

Ouça a reportagem em áudio:

 

Promovida pela Conferência Nacional dos Bispos do Brasil, a Campanha da Fraternidade deste ano tem como tema “Fraternidade e Moradia”. O texto-base reconhece que as ocupações urbanas fazem parte da realidade das cidades brasileiras, marcadas pela desigualdade social, pelo mercado imobiliário que exclui populações e pela ausência histórica de políticas públicas eficazes.

Segundo o Censo 2022, do Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE), mais de 11 milhões de brasileiros vivem em favelas e comunidades urbanas. A Região Norte tem a maior proporção do país: 19% da população mora nessas áreas. Em Manaus, mais da metade dos moradores vive em comunidades.

O Amazonas tem 398 favelas, e cerca de 60% estão em Manaus. A capital está entre as cidades com maior população vivendo nessas áreas. As maiores comunidades são Cidade de Deus/Alfredo Nascimento (55.821 moradores), São Lucas (53.674), Zumbi dos Palmares/Nova Luz (34.706), Santa Etelvina (33.031), Colônia Terra Nova (30.142) e Grande Vitória (26.733). Cidade de Deus/Alfredo Nascimento é a sétima maior do país em número de domicílios: 15.872.

O IBGE voltou a usar o termo “favela” após 50 anos. O instituto define essas áreas como locais com posse irregular da terra e falta de serviços básicos.

Bairro Santo Antônio – Foto: Arthur Amorim

Em Manaus, o crescimento acelerado empurrou milhares de famílias para áreas sem regularização fundiária e sem serviços básicos, principalmente nas periferias.

Para explicar por que mulheres negras, mães solo e indígenas assumem a liderança dessas ocupações, a professora Iraíldes Caldas Torres, doutora em Antropologia Social e docente da Universidade Federal do Amazonas, afirma que esse protagonismo resulta de um modelo histórico de urbanização excludente.

Porque as mulheres são mais destemidas, elas têm filhos para cuidar, elas são cuidadoras, aquelas que vão prover. Ela tem que ser forte para entrar nesse processo de ocupação de terra e não invasão. Invasão é um termo do capital, do capitalismo, do patrão. Ocupação é aquela que é de direito dos pobres, das mulheres, das pretas, das indígenas.

Segundo a pesquisadora, 53% da população do Amazonas passou por processos de ocupação marcados por desigualdade no acesso à terra, atravessados por classe social, raça e etnia.

É um processo de exclusão ou de tornar esses espaços fragmentados e não acessados por qualquer pessoa. São processos que têm a ver, portanto, com a questão de classe social, com cor ou com raça, têm a ver com a etnia indígena, enfim, têm a ver com os pobres.

Diante dessa realidade, o poder público atua para garantir segurança jurídica às famílias. A secretária de Estado das Cidades e Territórios, Renata Queiroz, afirma que a regularização fundiária precisa ir além da entrega de documentos e considerar a realidade social das comunidades.

É garantir dignidade, segurança e a tranquilidade de saber que aquele espaço realmente é seu. Entre as principais ações, temos o programa Amazonas meu Lar e também o Programa Solo Seguro, realizado em parceria com o Tribunal de Justiça do Amazonas. Além dessas iniciativas, a SECT também mantém um trabalho muito próximo dos municípios do interior, firmando termos de cooperação técnica com as prefeituras para oferecer suporte técnico e jurídico em todo o processo de regularização.

Ação promovida pela Secretaria de Estado das Cidades e Territórios / Divulgação Sect

Na zona Norte de Manaus, a ativista social Nara Joaquina Marques Mendes, da Comunidade Novo Milenium, assumiu a liderança ao identificar o aumento de famílias sem moradia.

Meu cotidiano é trabalhar, ouvir, acompanhar as atividades da comunidade, pegar as demandas e articular junto aos órgãos. Quando a gente vê mães, pais e crianças sem um lar seguro, a gente entende que moradia não é luxo, é direito. Foi esse direito que eu decidi defender. Minha luta sempre foi por moradia digna.

Roda de Conversa na Associação Wainakana Ayukawarana, na zona Norte de Manaus

Outra liderança é Hellen Greicy Kokama, da associação Wainakana Ayukawarana, formada por mulheres indígenas e não indígenas. Ela entrou em uma ocupação durante a pandemia após perder o emprego e não ter onde morar.

As principais dificuldades enfrentadas por essas mulheres é não ter um emprego digno, onde elas são 75% chefes de famílias, onde ela tem que se dobrar em três ou em dois para estar presente nas escolas, na saúde. A mudança que eu espero do poder público é que ela possa ter planos concretos. E isso é que me mantém cada vez mais firme, lutando pelas mulheres que ainda não tem essa oportunidade, para poder caminhar só.

Ruas da Comunidade Indígena Nova Vida, bairro Nova Cidade. Foto: Rafaella Amorim

Além da luta pelo território, essas mulheres enfrentam impactos emocionais causados pela insegurança da moradia. A psicóloga irmã Maria Couto afirma que essa sobrecarga costuma ser invisível.

Essas mulheres estão em estado permanente de alerta e isso, nesse contexto,  favorece para uma ansiedade persistente, um medo constante do futuro, chega a uma exaustão emocional e física, um sentimento de solidão e às vezes até de insuficiência mesmo. E essas mulheres vão adoecendo de forma silenciosa, muitas vezes não sendo reconhecido o seu sofrimento e muito menos são cuidadas.

Segundo ela, a Campanha da Fraternidade reforça que não há transformação social sem cuidado com a vida concreta, sobretudo com mulheres que sustentam famílias em situação de vulnerabilidade.

É nas periferias das nossas grandes cidades que Deus arma a sua tenda. E espiritualmente essas mulheres se aproximam do Deus, que houve o clamor do seu povo, do Deus que caminha com quem não tem onde repousar a cabeça. A fé, muitas vezes simples e cotidiana, é que sustenta, que dá esperança quando todas as garantias lhes faltam.

A Campanha da Fraternidade lembra que moradia não é apenas teto. É espaço de proteção, cuidado e construção de futuro.

Em Manaus, as ocupações revelam problemas sociais históricos, mas também mostram a força de mulheres que transformam dificuldade em organização e resistência.

Ao assumir essa pauta, a Igreja reafirma a presença junto às populações mais vulneráveis e reforça que fé e compromisso social caminham juntos.

É nesse contexto que a Campanha da Fraternidade ganha sentido no dia a dia de mulheres que sustentam as famílias e fazem da luta por moradia um caminho de resistência e esperança.

Confira a entrevista com Hellen Greicy Kokama, da associação Wainakana Ayukawarana, formada por mulheres indígenas e não indígenas:

Rafaella Amorim, Rádio Rio Mar

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