Vias públicas tornam-se ‘moradia’ para mais de 3 mil pessoas em Manaus

O aumento da população em situação de rua é uma das consequências mais evidentes da falta de moradia no país. Em Manaus, mais de 3 mil pessoas ocupam as vias públicas como espaço de moradia. Realidade que evidencia a invisibilidade dessa população e a necessidade de políticas públicas eficazes.

Ouça a reportagem em áudio:

Pessoas em situação de rua dormem no Largo São Sebastião / Foto: Tania Freitas

Os pés sujos, a pele maltratada pelo sol, o corpo molhado pela chuva e o pedido de alimento para matar a fome. Estes são apenas alguns clamores de quem é ignorado pela sociedade.

Realidade vivenciada por Arilson Mendes, de 30 anos.

“Às vezes à noite, eu acordava, estava chovendo, e me perguntava: Meu Deus, onde eu parei? Olha a situação que eu estou passando! Se o senhor quiser um dia me tirar daqui eu vou sempre te honrar.”

O surgimento da população em situação de rua é um dos reflexos do grave problema de moradia no Brasil,  evidenciado na Campanha da Fraternidade 2026, que tem como tema Fraternidade e Moradia.

Um dos elementos visuais da Campanha é a escultura “Cristo sem-teto”, que representa Jesus nos vulneráveis. A escultura convida a sociedade a refletir sobre a dignidade dos marginalizados.

Campanha da Fraternidade 2026 reflete sobre a dignidade da moradia como direito fundamental / Foto: Divulgação CNBB

De acordo com o último levantamento do Observatório Brasileiro de Políticas Públicas com a População em Situação de Rua, da Universidade Federal de Minas Gerais, no Brasil existem mais de 320 mil pessoas vivendo na rua, número que cresceu expressivamente nos últimos dez anos.

Esta população sofre inúmeros preconceitos, são estigmatizados. Uma dor que o paulista, Welligton Oliveira, carrega no peito após ter que transformar o papelão em cama improvisada no centro de Manaus

“Nós somos tratados com discriminação. Quando eu tinha moto, carro, morava em um condomínio fechado de classe média; onde tinha piscina; todos falavam comigo. Essas amizades quando me viram na rua, viraram as costas, começaram a me ver com preconceito. Isso, me trouxe depressão e ansiedade.”

Entre os principais fatores que levam à população a ir para as ruas estão: o desemprego, renda insuficiente, crise econômica e aumento da pobreza; bem como conflitos familiares, violência doméstica, dependência química e problemas de saúde mental, assim como a falta de acesso a políticas públicas de habitação.

O papelão torna-se colchão e coberta durante as noites, no centro de Manaus / Foto: Tania Freitas

Para o sociólogo, Luiz Antônio Nascimento, as cidades são um espelho de contrastes e contradições da sociedade.

“Os moradores de rua funcionam como uma espécie de espelho da sociedade. Eles desnudam, revelam as contradições da sociedade. Uma contradição onde se tem toda semana lançamento de moradias, empreendimentos imobiliários, convidando as pessoas a morar em locais com piscina, playgrounds, e nas ruas encontramos pessoas que romperam esse modelo de sociedade. Temos acompanhado um conjunto de pessoas em situação de rua porque não consegue pagar aluguel.”

Manaus possui mais de 3.100 pessoas em situação de rua. O levantamento foi feito pelo Departamento de Proteção Social Especial da Secretaria Municipal da Mulher, Assistência Social e Cidadania (Semasc) em janeiro de 2026.

A maior concentração dessa população está na zona sul, principalmente na área central da cidade. A maioria é homens. A faixa etária predominante é de 25 a 55 anos.

Levantamento da Semasc aponta que os homens são maioria entre os que vivem nas ruas / Foto: Divulgação Semcom

Um dos caminhos para reverter este quadro é a efetivação de políticas públicas. A Política Nacional para a População em Situação de Rua, criada em 2009, traz uma dimensão intersetorial para superar esta realidade de violação dos direitos humanos.

Atualmente, a Semasc aposta no Serviço de Abordagem Social para ajudar esta parcela da população. Na área central de Manaus é possível encontrar o Centro de Referência Especializado para População em Situação de Rua – Centro POP, além de dois Serviços de Acolhimento Institucional: a Casa de Passagem Pe.Orlando Barbosa e o Serviço de Acolhimento Institucional  Amine Daou Lindoso.

Poder público municipal disponibiliza atendimentos à População em Situação de Rua / Foto: Divulgação Semcom

A subsecretária da pasta, Graça Prola, explica como funcionam os atendimentos.

“O Cadastro Único demonstra que o tempo de permanência dessas pessoas na rua varia de cinco a seis anos. Agora, com a nova oferta de serviços pela Prefeitura de Manaus temos acolhidas 100 pessoas, das quais 20 vagas estão reservadas para as mulheres. No Centro Pop são atendidas mais de 120 pessoas diariamente para os atendimentos necessários, como: resgate para família ou recambio para o seu lugar de origem, além da Casa de Passagem que é o acolhimento temporário para essas pessoas.”

Nestes locais são disponibilizadas refeições, guarda pertences, espaço para higiene pessoal, acompanhamento psicossocial, articulações para documentações e demais políticas setoriais, como saúde, assistência e educação.

Djalma Lima é uma das pessoas atendidas. Atualmente, ele mora na Casa de Passagem e ao longo de mais de 60 dias teve a chance de reconstruir o caminho e voltar sonhar. Ele recebe tratamento e orientação com relação a dependência química, emitiu documentos, participa de cursos e teve acesso a benefícios sociais.

Djalma Lima se prepara para concursos públicos no Centro Pop, localizado no centro de Manaus / Foto: Tania Freitas

“Eu já consegui ser aprovado, meu Bolsa Família vai sair este mês. Também consegui ter acesso ao Bolsa Passaporte para inclusão. Consegui um emprego, vou fazer a terceira semana agora. Eu trabalho com uma equipe de doutoras, que recebem de denúncias de pessoas com deficiência visual e física, e idosos. Sou motorista delas.”

A Lua Mascarenhas viveu nas ruas de Manaus por anos, a orla da Ponta Negra e a Praça dos Remédios tornaram-se abrigo para dormir. Em extrema vulnerabilidade e exposta a diversas situações de violência, ela encontrou no acesso a políticas públicas uma mudança de chave. Hoje, atua como articuladora do Colaboratório Nacional Pop Rua, Polo Manaus, na Fiocruz Amazônia, no Centro Pop.

O acesso a educação e as políticas públicas mudaram a vida da Lua Mascarenhas / Foto: Tania Freitas

“Eu fico muito feliz de o destino ter me encaminhado para esse trabalho. Uma vez por semana venho para esse local, onde eu estudo e faço uma roda de conversa com a Pop Rua e a gente conversa sobre a Cartilha Nacional das Pessoas em Situação de Rua para eles conhecerem os direitos e os deveres de uma forma bem descontraída e acolhedora.”

A igreja católica também atua diretamente com esta parcela da sociedade. Uma das iniciativas é a Pastoral do Povo da Rua, presente desde 2017 na Arquidiocese de Manaus, com a missão de estimular a promoção de ações que construam alternativas em defesa da vida e contribuam na elaboração de políticas públicas junto a este público, como destaca Cássia Rozária, coordenadora deste serviço pastoral.

“O bem ao outro precisa ser uma meta de todos. Oração sem ação, ela fica devendo. E é isso que a gente busca, o resgate desse ser humano, desse cidadão para que ele possa também ter a oportunidade de usufruir da boa vida que Deus nos ofertou.”

Pastoral do Povo da Rua realiza diversas atividades em defesa da vida e de políticas públicas / Foto: Cássia Rozária

A Pastoral do Povo da Rua possui assento no Comitê Intersetorial de Acompanhamento e Monitoramento da Política Municipal da População em Situação de Rua (CIAMP Manaus). Criado pela Prefeitura de Manaus, a iniciativa busca monitorar e fortalecer as políticas públicas voltadas à população em situação de rua, com participação de órgãos públicos e da sociedade civil (Decreto nº 5.125 de 2021).

Dom Hudson Ribeiro, bispo da Arquidiocese de Manaus, defende que as políticas públicas devem ser efetivas / Foto Ana Paula Gioia

Dom Hudson Ribeiro, bispo referencial para as Pastorais Sociais da Arquidiocese de Manaus, destaca que a igreja sempre esteve presente na luta por acesso a políticas públicas e moradia para o povo de rua.

“No que diz respeito à moradia, trabalho, educação, ao cuidado com a saúde mental, a política pública existe. No entanto, ela ainda não foi efetivada e por este motivo é fruto de luta; e a Igreja Católica sempre participou deste processo. Então, o que falta efetivar é a política pública. Por exemplo: Quando diz respeito à moradia, existe uma portaria do Governo Federal que concede a população em situação de rua uma porcentagem das casas do projeto Minha Casa Minha Vida, dentro dessas políticas públicas de habitação”

De acordo com a Prefeitura de Manaus, o município conta com 4.756 unidades habitacionais nos complexos do Minha Casa, Minha Vida. Conforme Portaria Conjunta MCID/MDHC/MDS nº 04/2025, do Governo Federal, pelo menos 3% dessas moradias devem ser destinadas à população em situação de rua, o que corresponde a aproximadamente 143 unidades habitacionais.

Prefeitura deve destinar 143 unidades habitacionais à população em situação de rua / Foto: Divulgação Semcom

A obrigatoriedade se aplica a Manaus por ser capital estadual e estar entre os 38 municípios prioritários do programa. Em nota a equipe de jornalismo da Rádio Rio Mar, a gestão municipal informou que os prazos para efetivação dessas destinações ainda estão sendo definidos.

Enquanto isso, o sonho de muitos brasileiros, entre eles as pessoas em situação de rua, continua, na esperança de um teto, uma família, e oportunidade de fazer diferente.

“Trabalhar de carteira assinada, ter uma casa, uma família, ser uma pessoa da sociedade como os outros, porque quando nós somos moradores de rua, somos desprezados, humilhados, às vezes criticados pela nossa aparência e jeito de viver nas ruas. Só Deus sabe o que eu passo. Só desejo ter uma família e uma casa. O resto, eu entrego nas mãos do Senhor.”

 

Confira a entrevista com Dom Hudson Ribeiro, bispo referencial para as Pastorais Sociais da Arquidiocese de Manaus, sobre o trabalho da igreja junto a população em situação de rua e a importância de políticas públicas voltadas a esta população:

 

Tania Freitas – Rádio Rio Mar

 

 

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